terça-feira, 10 de abril de 2012

Brincadeira de existir não-existir

  Um dia desses, estava eu estudando. Livro, cadernos, bolsa, tudo espalhado em cima da mesa, e foi nessa situação que Lucas veio conversar comigo, mesmo não se atentando de que eu estaria ocupado. Engraçado foi o conteúdo da conversa, parecia até um mini-filósofo falando.
  - Pedrinho, Pedrinho... Você já percebeu que as coisas existem, mas não existem?
  - Olha, Lucas, devo confessar que essa sua ideia, eu não captei não... O que você quer dizer com isso?
  - Ué... É simples, as coisas existem, mas mesmo existindo, elas podem não existir...
  - Lucas, eu juro pra você que isso está ficando cada vez mais complicado de entender!!
  - Olha esse lápis na minha mão, tá vendo, Pedrinho? Então, ele existe?
  - Sim, estou vendo ele perfeitamente na sua mão - respondi.
  - Agora olha - e colocou o lápis debaixo da bolsa - ele não existe mais. Assim, ele existe, porque a gente sabe que tá lá, mas se a mamãe "vim" aqui, para ela não vai existir... Quer ver?! Mãe, ô mãe... Manhêêêêêê!!
  - Nossa, Luquinha, que foi?! Por que está gritando assim?!?!
  - Mãe... Olha na mesa, me diz o que você vê!
 - E você me chamou pra isso, menino?! Ahn... Tá... Os cadernos do Pedro, os livros, a bolsa e uma caneta...
  - E mais nada, mamãe?
  - Não, Lucas, mais nada...
  - Ah... Viu?!
  - Não, eu não vi mais nada não – respondeu nossa mãe já impaciente.
  - Olha aqui, mamãe!! - e tirou a bolsa - tem esse lápis e você não viu!!! E se eu não tivesse tirado a bolsa, você nem ia saber que existia, né?
  - É... Não saberia não... Mas por que isso?!
  - Só pra eu provar que eu sou mais inteligente que o Pedro - falou morrendo de rir.
  - Vê se te enxerga, seu pentelho! - respondi.
  - É, mas se você parar e analisar, você vai ver que o pentelho tem razão - respondeu nossa mãe - mas como você descobriu isso, Luquinha?!
  - Ah mamãe, assim... Eu tava na escolinha, todos os meus amiguinhos queriam o lápis vermelho, mas ninguém achava, era como se ele não existisse, mas a gente sabia que ele existe, mas, ninguém não achava não... Até que a Juju, uma amiguinha lá da escola, puxou um monte de papel que tinha lá e viu o lápis vermelho, assim era o negócio que existe, mas não existia mais e passou a existir de novo. Então as coisas existem e não existem ao mesmo tempo. E o mais legal é que a gente que pode eles fazer existir e não existir mais... Muito legal!!! Todo mundo fala que isso é brincadeira de esconder, mas eu, eu não... A minha é a brincadeira de existir e não-existir...
  E eu fiquei pensando, até que essa relação que Lucas fez, faz sentido. Engraçado que é uma coisa tão corriqueira, tão banal, vamos dizer assim, que a maioria das pessoas nem param para reparar esses fenômenos que conseguem ser simples e complexos ao mesmo tempo. Bem esse negócio de existir e não existir...

2 comentários:

Luiz disse...

Meuuu, qdo eu era pequeno eu pensava nisso, hehehe, por isso digo esse Lucas é uma peste!!!!!

Marina disse...

Conto muito filosófico, Nati! De forma inteligente você consegue colocar em pauta, por meio da delicadeza do Lucas, uma questão com que a Filosofia sempre se ocupa: espaço e tempo, a complexidade que envolve dizer que algo realmente existe, como comprovar isso. Quase um Descartes haha Parabéns!

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