domingo, 18 de dezembro de 2011

Meu pai, meu irmão

Para Marina Franconeti

Lembro ainda de quando o Lucas era pequeno, a enorme dificuldade que ele tinha de falar com o nosso pai.
Com a nossa mãe, sempre fora mais fácil, dizia ele sempre assim:
"- Pedro, a mamãe é um anjo... E a voz dela é de água com açúcar...
- Água com açúcar, Luquinhas?!
- É... Água com açúcar... É só a gente "escutá" que ficamos calminho calminho..."
O mesmo não acontecia com o nosso pai. Podia até perceber um certo medo que Lucas tinha dele, às vezes, era só o nosso pai começar a falar, que ele se encolhia todo...
"- Sabe, Pedro? A mamãe tem voz de água com açúcar, mas o papai... Ele tem voz de trovão... É muito grossa... E eu, tenho voz de 'trovinho'... E...
- Espera um pouco, voz de quê?!
- Voz de trovinho... Trovão pequeno... E eu fico com medo... E aquele bigodão que esconde a boca dele... A gente não sabe nem se ele ri... Sabe, dá a impressão de que o pai 'tá' sempre bravo!!!"
Não podia deixar de achar engraçado essas comparações dele, mas mesmo assim, me preocupava. Lucas sentia medo de nosso pai pelos motivos errados... E isso poderia fazer com que eles se separassem.
Comentei isso com nosso pai e ele foi conversar com o Lucas. Eu assisti  a conversa, mas sem intervir...
"- Oi Lucas, posso me sentar aqui com você? -  disse nosso pai.
- Po.. Pode papai... É... Pode sim... - disse Lucas, surpreso.
- Posso saber o que o senhorzinho está fazendo?
- Senhorzinho? Mas por que senhorzinho, papai?
- Oras, eu sou senhor, porque eu sou grande e você, como é pequeno, é senhorzinho...
- Ahhhh - e a torcidinha de nariz de sempre - Eu pensei que só eu pensava assim, sabe?!
- Ihhh... Acho que o senhorzinho está enganado então! Sabe? Eu também tenho os meus segredinhos!
- Segredinhos?!
- É... Sabe, eu já fui assim do seu tamanho e pensava coisas assim como você... Até hoje eu penso, quer saber uma das coisas?!
- Huuuuum... Quero sim papai!
- Bom, sabe o céu lá em cima? Ele é azul de dia, e azul mais escuro de noite, né? Tem o sol... E as estrelas... Eu sempre achei as estrelas eram vagalumes e o sol, um vagalume gigante, que por ser tão grande, conseguia iluminar o céu daquele jeito e deixar tudo claro...
  - Mas papai, se ele é tão grande, como ele some de noite e deixa os outros vagaluminhos brilhar?
  - Ah senhorzinho, fácil, ele tá lá longe, e se esconde do outro lado da Terra, assim, fica o vagalumão de um lado e fica os vagaluminhos do outro... Sabe, ele é muito gentil, e não impede que os outros brilhem também!
  - Ahh... Entendi... Papai, posso te fazer uma pergunta?
  - Pode, Lucas.
  - Posso ir lá contar pro Pedrinho isso?!
  - Pode sim...
  - E  mais uma coisa, você aceita ser meu amigo trovão enquanto sou seu amigo trovinho, pra sempre?
  - Claro que sim... E quando lembrar de mais coisas assim, eu te conto, tudo bem senhorzinho?
  - Tudo bem, senhorzão!"
  E saiu correndo, me chamando pra contar os segredos de nosso pai, todo cheio de si, falando que ele era senhorzinho e dos vagaluminhos e o vagalumão...
  Foi bom vê-los juntos, e nunca mais se separaram, mas o melhor de tudo, foi que eu nunca perdi o meu posto, para sempre fui o ouvinte número um das histórias de Lucas.

3 comentários:

Marina disse...

muito obrigada por dedicá-lo a mim, Nati! Eu que te contei apressadamente o episódio de um menino dizendo ao pai, no ônibus, que "também tinha segredos"! Ficou lindo!

Luiz disse...

Lindo como sempre hein, hehehe, qdo eu era pequeno pensava a mesma coisa sobre as estrelas e os vaga lumes, aeeee

Lucas Godoy disse...

Wow, tá cada vez melhor esses contos! Espero que continue postando! Um verdadeiro orgulho!

Abs

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